A perda de biodiversidade ameaça a estabilidade financeira dos Estados
A destruição da natureza e o desaparecimento das florestas reduzem a capacidade dos países de pagarem suas dívidas. Esses fenômenos enfraquecem as bases naturais da economia, limitando a produção e agravando o fardo dos governos. Atualmente, as agências de classificação financeira ignoram esses riscos, o que poderia levar a uma avaliação incorreta de 83 trilhões de dólares em ativos no mundo.
Um estudo recente integrou esses riscos na avaliação da dívida soberana, aquela emitida pelos Estados. Ele examina três serviços ecossistêmicos essenciais: a exploração de madeira tropical, a polinização silvestre e a pesca marítima. Se esses serviços entrarem em colapso parcial, poderiam custar 162 bilhões de dólares por ano em juros adicionais sobre a dívida pública. Para a Índia, isso representaria 49 bilhões de dólares, ou 2,4% da renda disponível mediana de seus cidadãos. A China, por sua vez, veria seus custos aumentarem em 70 bilhões por ano.
Alguns países seriam ainda mais afetados. Angola, Bangladesh, a República Democrática do Congo e Madagáscar poderiam sofrer perdas de produto interno bruto superiores a 15% até 2030. Essas perdas afetariam não apenas suas economias, mas também sua capacidade de tomar empréstimos a taxas acessíveis. Os mercados financeiros, portanto, subestimam sistematicamente os riscos relacionados à natureza, com consequências graves para as finanças públicas e a estabilidade econômica.
Metade da riqueza mundial depende diretamente da natureza. No entanto, as ações para proteger a biodiversidade estão atrasadas em relação às implementadas para o clima. Pandemias, como a da COVID-19, tornam-se mais prováveis com o desmatamento e o desaparecimento de espécies. Uma queda nos serviços ecossistêmicos poderia causar uma redução anual de 2 trilhões de dólares no produto interno bruto global até 2030.
As agências de classificação, que avaliam a capacidade dos Estados de pagarem suas dívidas, não levam em consideração esses riscos futuros. No entanto, sua omissão poderia ter consequências desastrosas, como na crise dos subprimes em 2008. Os cenários estudados mostram que até mesmo uma degradação parcial dos ecossistemas poderia provocar rebaixamentos na classificação financeira de muitos países. Por exemplo, China e Malásia veriam sua nota cair mais de cinco níveis, o que tornaria seu endividamento muito mais caro.
Os Estados têm poucas opções para enfrentar esses custos adicionais. Eles podem reduzir os gastos públicos, tomar mais empréstimos, dar calote ou aumentar os impostos. Nenhuma dessas soluções é ideal. Reduzir os gastos significa menos investimentos em educação, saúde ou infraestrutura. Tomar mais empréstimos agrava o problema a longo prazo. Dar calote tem consequências duradouras na confiança dos mercados. Por fim, aumentar os impostos pesa sobre os cidadãos, já muitas vezes fortemente tributados.
Os mercados financeiros e os governos devem, portanto, reconhecer a urgência. Integrar os riscos relacionados à biodiversidade nas avaliações de crédito evitaria surpresas custosas. Países ricos em biodiversidade, muitas vezes entre os mais endividados, são especialmente vulneráveis. Se nada for feito, a perda da natureza agravará a crise da dívida, já qualificada como uma catástrofe para o desenvolvimento pela ONU.
Os custos adicionais ligados à degradação da natureza poderiam atingir 162 bilhões de dólares por ano para apenas 23 países estudados. Isso representa quase 80% da meta global de 200 bilhões de dólares por ano estabelecida para financiar a proteção da biodiversidade. Investir na natureza hoje permitiria evitar despesas muito maiores amanhã, ao mesmo tempo em que protege a economia e o bem-estar das populações.
Données et sources
Source officielle de l’étude
DOI : https://doi.org/10.1038/s41559-026-03081-7
Titre : Biodiversity loss will decrease the future creditworthiness of nations
Revue : Nature Ecology & Evolution
Éditeur : Springer Science and Business Media LLC
Auteurs : Matthew Agarwala; Matt Burke; Patrycja Klusak; Moritz Kraemer; Ulrich Volz; Benjamin K. Sovacool